Entidade destaca que retenção de faturamento, glosas e inadimplência geram impactos profundos e exigem soluções conjuntas para o setor.
O setor de saúde suplementar brasileiro enfrenta um momento crucial, marcado por tensões e desequilíbrios financeiros. Um estudo recente da ABRAIDI (Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde) expôs a gravidade da situação, revelando que os pagamentos pendentes ou não realizados atingiram a impressionante marca de R$ 5,787 bilhões em 2026. Este é o valor mais alto registrado desde 2017, indicando uma crise profunda que exige atenção e medidas urgentes de todos os envolvidos.
Diante desse cenário desafiador, a busca por uma nova postura, baseada no diálogo e na transparência, ganha força. Foi com essa visão que a ABRAIDI participou do Integra 2026 – Meeting Nacional de Integração entre Fontes Pagadoras e Prestadores, evento realizado em Salvador nos dias 29 e 30 de julho, com o objetivo de fomentar a construção de soluções conjuntas para o sistema.
A associação integrou o debate sobre como o recém-criado Instituto Consenso pode contribuir para a convergência de interesses e um diálogo mais produtivo na saúde suplementar. A proposta é substituir a desconfiança por uma cultura de colaboração, essencial para garantir a sustentabilidade do setor e, principalmente, a qualidade da assistência prestada ao paciente.
Desafios financeiros na saúde suplementar se intensificam
A pesquisa da ABRAIDI detalha que o montante de R$ 5,787 bilhões em pagamentos pendentes é resultado de três distorções crônicas que afetam a cadeia. A retenção de faturamento, que soma R$ 2,077 bilhões, ocorre quando hospitais ou operadoras impedem a emissão de notas fiscais e boletos de cobrança, mesmo após cirurgias previamente autorizadas e realizadas. O prazo médio para essa autorização chegou a alarmantes 170 dias.
Além disso, foram identificados R$ 167,17 milhões em glosas consideradas injustificadas, situação em que cobranças são contestadas ou pagamentos são adiados, apesar da documentação e autorização prévia estarem devidamente regularizadas. Completa o quadro um volume significativo de R$ 3,543 bilhões em inadimplência.
Os impactos dessas distorções são profundos para as empresas do setor. Para manter as operações, 64% delas precisaram recorrer a empréstimos bancários, e o comprometimento médio do faturamento alcançou 36%. Isso significa que recursos que poderiam ser investidos em inovação, qualificação e ampliação do acesso a tecnologias são consumidos pelos altos custos financeiros decorrentes da demora nos recebimentos.
O papel estratégico dos distribuidores de produtos para saúde
As empresas de importação e distribuição de dispositivos médicos e produtos para saúde, representadas pela ABRAIDI, ocupam uma posição estratégica fundamental na cadeia assistencial. Elas são responsáveis por garantir que hospitais e profissionais de saúde tenham acesso, no tempo certo, às tecnologias necessárias para salvar vidas, reduzir complicações e aprimorar a qualidade do atendimento.
No entanto, esses elos da cadeia convivem com um ambiente de negócios em transformação. A concentração de compradores e o elevado poder de negociação de poucos agentes criaram uma relação assimétrica com os fornecedores. Ao mesmo tempo em que a responsabilidade dos distribuidores aumenta em aspectos assistenciais, financeiros e tributários, crescem também as pressões sobre suas margens de lucro, prazos e riscos operacionais.
Instituto Consenso e o diálogo: caminho para a sustentabilidade do setor
Para o presidente da ABRAIDI, Ronaldo Sampaio, nenhum elo da cadeia conseguirá enfrentar esses desafios de forma isolada. A sustentabilidade da saúde suplementar depende da construção de um ambiente de negócios mais previsível, transparente e equilibrado. Isso exige um diálogo permanente e construtivo entre operadoras, hospitais, distribuidores, fabricantes, órgãos reguladores e entidades representativas.
Iniciativas como o Instituto Consenso são vistas como uma oportunidade crucial para aproximar diferentes visões e construir soluções que beneficiem todo o sistema. A entidade defende que consenso não significa a ausência de divergências, mas sim a disposição de enfrentá-las por meio da negociação, da produção de evidências e do respeito institucional.
A ABRAIDI tem se empenhado em qualificar o debate, levando às autoridades públicas e órgãos reguladores informações consistentes sobre retenções de faturamento, glosas e inadimplência. Esse compromisso visa orientar políticas e decisões mais eficientes, baseadas em dados concretos, além de capacitar associados, disseminar boas práticas e reduzir riscos sistêmicos, especialmente para pequenas e médias empresas, mais vulneráveis.
Paciente no centro: o foco da saúde suplementar
Em meio a todas as discussões financeiras e operacionais, o paciente frequentemente fica em segundo plano, apesar de ser o personagem central. É o cidadão quem financia o sistema, direta ou indiretamente, seja pelo pagamento do plano de saúde ou dos serviços utilizados. Em última instância, toda a cadeia deve entregar valor a ele.
Garantir relações mais equilibradas e transparentes entre todos os participantes da saúde suplementar não é apenas uma questão financeira ou empresarial. É, acima de tudo, um compromisso com a qualidade da assistência, a continuidade do acesso às melhores tecnologias e o respeito ao consumidor que sustenta todo o sistema, como ressalta a visão defendida pela ABRAIDI.
Perguntas Frequentes
O que é o Integra 2026?
O Integra 2026 é o Meeting Nacional de Integração entre Fontes Pagadoras e Prestadores, um evento realizado nos dias 29 e 30 de julho em Salvador, que busca fomentar o diálogo e a construção de soluções conjuntas para os desafios da saúde suplementar brasileira.
Qual o valor total de pagamentos pendentes na saúde suplementar, segundo a ABRAIDI?
Uma pesquisa recente da ABRAIDI revelou que o montante de pagamentos pendentes ou não realizados atingiu R$ 5,787 bilhões em 2026. Este é o maior valor desde o início da série histórica em 2017, evidenciando a crise financeira do setor.
O que são retenção de faturamento e glosas injustificadas?
Retenção de faturamento ocorre quando, após uma cirurgia autorizada e realizada, hospitais ou operadoras impedem o fornecedor de emitir a nota fiscal para cobrança. Glosas injustificadas são contestações ou atrasos de pagamentos, mesmo com toda a documentação e autorização prévia devidamente regularizadas.
Como o Instituto Consenso pode ajudar na saúde suplementar?
O Instituto Consenso é uma iniciativa criada para promover o diálogo e a convergência de interesses entre os diversos atores da saúde suplementar, como operadoras, hospitais e distribuidores. Seu objetivo é construir um ambiente de negócios mais transparente, previsível e equilibrado, utilizando dados para qualificar debates e gerar soluções.
Quais são os principais impactos das distorções financeiras no setor?
As distorções financeiras, como retenção e glosas, comprometem a sustentabilidade das empresas, forçando 64% delas a buscar empréstimos e desviando recursos que poderiam ser destinados a investimentos e inovação. Em última análise, isso afeta a qualidade da assistência, o acesso a tecnologias e o respeito ao paciente, que é o financiador do sistema.
