Decisão dos EUA levanta dúvidas, mas especialistas reforçam que o calendário brasileiro é crucial para proteger os pequenos da imaturidade imunológica.

A vacinação em crianças é uma das ferramentas mais poderosas para prevenir doenças graves, especialmente nos primeiros anos de vida. Contudo, o tema ganhou um novo capítulo de discussões nos Estados Unidos, após uma decisão do presidente Donald Trump em 10 de agosto. Essa medida limitou a 11 o número de vacinas recomendadas no calendário infantil e sugeriu alterações na forma de aplicação de algumas delas.

Entre as sugestões, Trump propôs separar a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) em três doses distintas. Além disso, afirmou que crianças de 1 ano deveriam receber suas vacinas em cinco consultas separadas, sem detalhar como essa logística ocorreria. Tais propostas reacenderam o debate global sobre a quantidade de vacinas indicadas na infância, a aplicação simultânea de imunizantes e a necessidade de doses de reforço.

Para esclarecer essas questões, o Dr. Francisco Ivanildo de Oliveira Junior, infectologista e gerente de Qualidade Assistencial e Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Sabará Hospital Infantil, foi consultado. O especialista reforça a importância de manter o calendário de vacinação atualizado no Brasil, fundamentado em evidências científicas e na realidade epidemiológica local.

A Polêmica da Vacinação nos EUA e o Alerta dos Especialistas

A decisão dos Estados Unidos, que reduziu de 18 para 11 as doenças com recomendação universal para vacinação infantil, não é baseada em novas evidências científicas. De acordo com o Dr. Francisco, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) implementou essa mudança em janeiro de 2026, mas nenhum dado novo foi apresentado para justificá-la.

A Academia Americana de Pediatria, por sua vez, manteve o próprio calendário com as 18 doenças e não endossou a alteração do CDC. O especialista classifica a medida americana como "uma decisão administrativa e ideológica, não científica", indicando que não há respaldo técnico para a redução.

A Importância da Imunidade Precoce e o Calendário de Vacinação Infantil

Muitos se perguntam por que as crianças recebem tantas vacinas em seus primeiros anos. Dr. Francisco explica que essa fase é de maior vulnerabilidade. O sistema imunológico dos bebês ainda está em desenvolvimento e sem memória para combater diversas doenças. Além disso, os anticorpos recebidos da mãe diminuem progressivamente, especialmente após os primeiros meses de vida.

Doenças como coqueluche, meningites, pneumonia, diarreias e sarampo podem ser mais graves nessa faixa etária, elevando o risco de internações e óbitos antes dos 2 anos. O infectologista enfatiza que "o calendário de vacinação segue a curva de risco da criança, não a comodidade dos adultos". Ele adverte que atrasar a vacinação significa deixar a criança desprotegida no período de maior suscetibilidade.

Mitos e Verdades sobre Múltiplas Vacinas e Doses de Reforço

Uma preocupação comum é se a aplicação de várias vacinas ao mesmo tempo pode sobrecarregar o sistema imunológico do bebê. Dr. Francisco tranquiliza os pais, explicando que o corpo do bebê já interage diariamente com milhares de antígenos ao respirar, mamar ou engatinhar.

Existem evidências científicas que demonstram que um bebê possui capacidade teórica para desenvolver resposta imunológica a um estímulo muito superior ao que é oferecido pelo número atual de vacinas. O médico ressalta que "não há evidência de sobrecarga: nem para autismo, nem para maior risco de outras infecções".

Sobre a sugestão de separar a tríplice viral em três vacinas, o especialista afirma que não há benefício comprovado. A vacina combinada oferece uma resposta imunológica equivalente à aplicação das doses separadamente. Dividi-las resultaria em "mais picadas, mais idas à unidade de vacinação e mais chance de atraso ou perda da vacinação", sem nenhuma vantagem para a saúde da criança.

O Risco do Sarampo e Poliomielite e o Calendário de Vacinação no Brasil

A ideia de que menos vacinas significam um calendário mais seguro é contestada pelo Dr. Francisco. Ele explica que a segurança é avaliada pela relação entre os riscos da vacina e as doenças que ela previne, e não pela quantidade de injeções. Cada dose é indicada após estudos que comprovam sua necessidade para a efetividade da proteção.

Remover doses não elimina riscos, mas os substitui por ameaças maiores e reais. Nos Estados Unidos, por exemplo, já foram registrados mais de 2.300 casos de sarampo em 2026, o pior ano desde 1991. A queda na cobertura vacinal pode ter um efeito devastador, pois o sarampo exige cerca de 95% de cobertura para evitar que um doente transmita a doença para 12 a 18 pessoas.

A região das Américas, inclusive, perdeu o status de livre do sarampo em novembro de 2025, com quase 50 mil casos confirmados em 2026. No Brasil, foram 23 casos confirmados até agosto de 2026, com transmissão ativa em São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos. A poliomielite segue a mesma lógica: o vírus ainda circula em outros países, e embora o Brasil não registre casos desde 1989, a cobertura vacinal abaixo da meta representa um risco de reintrodução.

Os calendários vacinais diferem entre países porque são elaborados com base na realidade local, incluindo doenças circulantes, faixas etárias de maior risco, gravidade das enfermidades e a estrutura de saúde disponível. A vacina contra a febre amarela, por exemplo, é crucial no Brasil, mas desnecessária na Europa. O BCG é rotina ao nascer no Brasil e nem existe no calendário americano. São "contextos diferentes, não versões melhores ou piores", esclarece o Dr. Francisco.

Portanto, as decisões adotadas em outros países, como as dos Estados Unidos, não devem ser automaticamente replicadas no Brasil. O calendário nacional é definido pelo Ministério da Saúde, com o suporte técnico de entidades como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), levando em conta a epidemiologia local. A principal orientação é manter o cartão de vacinação sempre em dia, com atenção especial à segunda dose, onde se observa maior falha.

Perguntas Frequentes

É seguro aplicar várias vacinas ao mesmo tempo em bebês?

Sim, é seguro. O sistema imunológico do bebê já interage diariamente com milhares de antígenos. Não há evidências científicas de sobrecarga imunológica ou risco aumentado para outras condições, como autismo, ao aplicar múltiplas vacinas simultaneamente.

Por que o calendário de vacinação varia entre os países?

Os calendários são adaptados à realidade de cada nação, considerando as doenças que circulam localmente, a faixa etária de maior risco, a gravidade das enfermidades e a capacidade do sistema de saúde. Não se trata de um calendário ser "melhor" ou "pior", mas sim adequado ao contexto.

A decisão dos Estados Unidos de limitar vacinas muda o calendário vacinal brasileiro?

Não. As recomendações dos Estados Unidos não alteram automaticamente o calendário do Brasil. O planejamento vacinal nacional é estabelecido pelo Ministério da Saúde, com apoio da Sociedade Brasileira de Pediatria e SBIm, com base na epidemiologia brasileira.

Quais são os riscos de não vacinar as crianças?

A falta de vacinação deixa as crianças vulneráveis a doenças graves que podem levar a internações, sequelas e até óbitos. A queda na cobertura vacinal aumenta o risco de surtos e reintrodução de enfermidades já controladas, como sarampo e poliomielite, que ainda circulam globalmente.