Embora o SUS tenha aprovado novos tratamentos intravenosos para anemia em 2023 e 2024, como a derisomaltose férrica, o protocolo oficial que orienta a rede pública permanece de 2014.

Pacientes que sofrem de anemia por deficiência de ferro deveriam ter acesso a opções de tratamento mais modernas e eficazes, especialmente com as recentes aprovações do Sistema Único de Saúde (SUS). Nos últimos anos, o sistema público de saúde ampliou significativamente o leque de alternativas terapêuticas disponíveis.

Contudo, uma lacuna preocupante impede que esses avanços cheguem plenamente à população. Em 2026, o documento oficial do Ministério da Saúde que serve como referência para o tratamento da anemia — o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) — ainda é datado de 2014 e não contempla as inovações já incorporadas.

Essa defasagem levanta um questionamento crítico sobre a efetividade das políticas públicas no Brasil: uma decisão só se concretiza e beneficia a sociedade quando sua implementação atinge, de fato, a vida dos cidadãos. O caso da anemia por deficiência de ferro serve como um alerta para este desafio.

Novas Opções no Tratamento da Anemia por Deficiência de Ferro

O tratamento da anemia por deficiência de ferro geralmente começa com a reposição oral. No entanto, muitos pacientes não respondem a essa via, apresentam intolerância ou possuem contraindicações, necessitando de alternativas intravenosas. O SUS reconheceu essa demanda e agiu para expandir as possibilidades.

Em 2023, foram incorporados ao sistema público a ferripolimaltose e a carboximaltose férrica. Seguindo essa linha, em 2024, a derisomaltose férrica também passou a integrar o rol de opções disponíveis para o tratamento da condição. Essas incorporações representam um avanço importante para milhões de brasileiros.

O Impasse do Protocolo Clínico Desatualizado no SUS

Apesar dos novos medicamentos estarem disponíveis, o documento que deveria guiar os profissionais de saúde sobre diagnóstico, tratamento e acompanhamento na rede pública não reflete essa realidade. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de Anemia por Deficiência de Ferro permanece na versão de 2014 no site oficial do Ministério da Saúde.

O processo de atualização do PCDT teve início e progrediu. A primeira revisão passou por consulta pública em 2023. Após a inclusão da derisomaltose férrica, uma nova versão foi submetida à sociedade entre 19 de dezembro de 2024 e 7 de janeiro de 2025, recebendo recomendação favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em fevereiro de 2025. Mesmo assim, a versão mais recente não está oficialmente publicada.

Carolina Cohen, fundadora da organização social Colabore com o Futuro, ressalta a importância de concretizar esses avanços: “Houve mobilização, escuta da sociedade, avaliação das tecnologias e avanço na atualização das diretrizes. O próximo passo é acompanhar como esse processo se traduz na prática. Para o paciente, o resultado de uma política pública precisa aparecer no cuidado que ele recebe.”

A Voz dos Pacientes e o Papel da Colabore com o Futuro

A anemia por deficiência de ferro é um problema de saúde pública de grande escala no Brasil. Dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) de 2006 indicaram uma prevalência de 20,9% entre crianças menores de cinco anos e de 29,4% entre mulheres em idade fértil. Esse cenário sublinha a urgência de políticas de cuidado atualizadas e efetivamente implementadas.

Nesse contexto, a Colabore com o Futuro, um negócio social focado em estratégias de mudança na saúde, desempenha um papel crucial. Por meio da campanha Juntos Somos Mais Fortes, a organização mobilizou pacientes e entidades para participar ativamente das consultas públicas, garantindo que a perspectiva de quem vive com a condição fosse ouvida nos espaços institucionais.

Para Carolina Cohen, a participação social é apenas o começo: “Participar de uma consulta pública é importante, mas não é o ponto final. O paciente precisa saber que sua contribuição foi considerada e acompanhar os desdobramentos daquilo que ajudou a construir.” A atuação da Colabore com o Futuro busca exatamente isso: assegurar que as decisões se traduzam em cuidado real.

Impacto Direto na Vida dos Pacientes com Anemia

Os sintomas da anemia por deficiência de ferro, como cansaço, fraqueza, palidez, tontura e falta de ar, podem comprometer severamente a qualidade de vida e as atividades diárias. Para quem não consegue tolerar ou não responde ao tratamento oral, as alternativas intravenosas incorporadas pelo SUS representam uma esperança vital para a condução do cuidado.

A permanência de um protocolo de 2014 como referência oficial do Ministério da Saúde evidencia a grande distância entre as conquistas no âmbito das políticas públicas e sua materialização na ponta, ou seja, no atendimento ao paciente. “Para quem precisa de tratamento, o tempo da necessidade é diferente do tempo dos processos administrativos. Por isso, acompanhar o caminho entre uma conquista e sua efetivação também faz parte do nosso trabalho”, afirma a executiva.

O caso da anemia por deficiência de ferro ilustra um desafio sistêmico na saúde brasileira: garantir que a participação social não se encerre na etapa de escuta e que os avanços construídos coletivamente resultem em impacto concreto para a população. É fundamental que as decisões na saúde, que é de todos, se traduzam em benefícios tangíveis para o cidadão.

Perguntas Frequentes

O que é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT)?

O PCDT é um documento oficial do Ministério da Saúde que estabelece critérios para o diagnóstico, tratamento e acompanhamento de doenças específicas na rede pública, orientando médicos e demais profissionais de saúde.

Quais novos medicamentos para anemia o SUS aprovou?

O SUS incorporou três novos medicamentos intravenosos para anemia por deficiência de ferro: a ferripolimaltose e a carboximaltose férrica em 2023, e a derisomaltose férrica em 2024.

Quem é afetado pela anemia por deficiência de ferro no Brasil?

A anemia por deficiência de ferro afeta uma parcela significativa da população brasileira. Dados da PNDS de 2006 mostram que 20,9% das crianças menores de cinco anos e 29,4% das mulheres em idade fértil sofrem com a condição.

Por que a atualização do PCDT é crucial para pacientes com anemia?

A atualização do PCDT é crucial porque garante que os profissionais de saúde tenham acesso às diretrizes mais recentes e completas, permitindo que os pacientes recebam os tratamentos mais modernos e eficazes, incluindo as novas opções intravenosas aprovadas pelo SUS.

Como a Colabore com o Futuro atua na saúde?

A Colabore com o Futuro é um negócio social que atua na saúde promovendo estratégias de mudança por meio da mobilização social, participação de pacientes em decisões e disseminação de informações, buscando garantir que as políticas públicas se traduzam em acesso e cuidado efetivos.