O cardiologista pediátrico Brian Han, da Stanford University, debaterá no HIS 2026 como a visão clínica é crucial para inovações em tecnologia.

O HIS 2026, um dos principais eventos de saúde digital e inovação, está prestes a começar, e um dos debates que ganhará grande destaque é o elo fundamental entre tecnologia e medicina. Com o avanço rápido da inteligência artificial, dados e ferramentas digitais na assistência, uma questão central emerge: quem está, de fato, definindo os problemas que essas tecnologias são projetadas para solucionar?

Essa provocação estará no centro da palestra de Brian Han, cardiologista pediátrico e médico intensivista da renomada Stanford University, que será keynote do HIS 2026. Sua proposta é rediscutir o papel do médico, transformando-o de um mero usuário para um participante ativo na construção das soluções que estão redesenhando o cenário da saúde.

Para Han, essa mudança de perspectiva não é apenas importante, mas pode determinar a própria relevância das inovações na medicina. Sua visão desafia o modelo tradicional e sugere uma nova abordagem para o desenvolvimento da saúde digital.

Inovação na saúde começa na necessidade do paciente

Um dos pontos cruciais que Brian Han pretende discutir é uma inversão de lógica comum em muitos projetos de saúde digital. Segundo o especialista, é frequente que se parta da tecnologia disponível para, somente depois, buscar onde aplicá-la, um método que ele considera falho.

A experiência do ecossistema de Stanford aponta para uma direção diferente. “Quando os médicos são apenas usuários, o problema é definido por quem construiu a ferramenta – e o resultado geralmente é tecnicamente impressionante, mas clinicamente irrelevante”, explica Brian Han.

Em vez disso, a orientação é: “Comece pela necessidade, não pela tecnologia, e permaneça na necessidade por muito mais tempo do que parece confortável”. Antes de escolher qualquer ferramenta, as organizações de saúde precisam compreender o problema em profundidade, identificar os atritos no cuidado e definir qual resultado pretendem transformar.

Isso exige envolver os profissionais que vivenciam esses desafios no dia a dia da assistência desde as etapas iniciais do processo de inovação. Edison Renato Silva, COO da Tabia Health e conselheiro médico onde Han atua, compartilha dessa visão.

Para Silva, a participação dos profissionais de saúde não deve se limitar ao momento em que a tecnologia já está pronta para ser implementada, mas sim iniciar na própria definição do problema. “O profissional de saúde deveria estar definindo o problema, e não apenas sendo treinado a usar a solução”, afirma Silva, sublinhando a importância da voz clínica.

O médico-arquiteto e a construção da saúde digital

Essa mudança de posicionamento do profissional de saúde está no cerne do conceito de “médico-arquiteto”, uma expressão que sintetiza uma das ideias centrais exploradas na palestra “O Clínico Inovador: Arquitetando a Saúde Digital no Ecossistema de Stanford”.

Mais do que simplesmente identificar problemas clínicos, esse profissional atua nas etapas subsequentes, dialogando com as diversas áreas envolvidas no desenvolvimento de uma solução tecnológica. Não se trata de transformar médicos em especialistas em tecnologia ou programadores.

O objetivo é aproximá-los das decisões que determinam como essas ferramentas serão concebidas e utilizadas. “Os problemas mais difíceis da saúde agora não são puramente clínicos ou puramente técnicos, mas uma combinação de ambos”, comenta Han, ressaltando a complexidade dos desafios atuais.

Para o COO da Tabia Health, Edison Renato Silva, essa participação também é fundamental para estabelecer limites claros para o uso da tecnologia. Ao conhecer a fundo o contexto da assistência, o profissional de saúde consegue distinguir as situações em que a automação pode realmente gerar valor daquelas em que o elemento humano permanece insubstituível.

“Dizer ‘isso não é problema de tecnologia’ é tão valioso quanto apontar onde ela cabe”, reforça o executivo Edison Renato Silva, destacando a sabedoria de saber quando a intervenção tecnológica não é a melhor resposta.

Lições de Stanford para hospitais brasileiros

A palestra de Brian Han no HIS 2026 também se apoia na experiência do ecossistema de Stanford para discutir o que pode ser aproveitado por hospitais e organizações de saúde, inclusive no Brasil. Han enfatiza que sua própria formação não foi resultado de um único programa, mas da combinação de diferentes ambientes, métodos e conexões.

Essa formação integrou a prática clínica, pesquisa, design, indústria e negócios. A articulação desses campos diversos levanta uma questão crucial para as organizações brasileiras: como criar ambientes em que médicos, profissionais de tecnologia, designers e executivos possam trabalhar juntos na identificação e solução de problemas reais da assistência?

Essa pergunta ganha ainda mais relevância com a expansão sem precedentes da inteligência artificial na saúde. Mais do que simplesmente incorporar ferramentas digitais, hospitais e clínicas precisam repensar profundamente seus processos, suas responsabilidades e as formas de trabalho para que a tecnologia produza um impacto efetivo e duradouro no cuidado ao paciente.

Um novo papel para o profissional da medicina

Mais do que apresentar ferramentas ou tendências da saúde digital, a palestra de Brian Han pretende provocar uma mudança profunda na forma como os médicos percebem e se envolvem em sua participação na transformação digital. Ele lança um desafio direto aos profissionais de saúde.

“Eu os desafiaria a parar de pensar na inovação como algo que acontece com a medicina e começar a pensar nela como algo em que os médicos têm a responsabilidade de participar”, declara Han, instigando uma postura proativa e engajada.

Essa responsabilidade, segundo o especialista, não significa que todo médico precise aprender a programar, abandonar a prática clínica diária ou se tornar um empreendedor. O cerne da questão é a participação ativa em discussões que, tradicionalmente, estiveram fora do currículo da formação médica.

“Você não precisa abandonar a prática clínica, aprender a programar ou fundar uma empresa para fazer parte do design do que vem a seguir, mas precisa aparecer em salas nas quais você não foi treinado para estar”, completa o especialista.

É exatamente nessa intersecção entre a experiência clínica, a tecnologia, o design e a gestão que a palestra de Brian Han pretende colocar o debate sobre o futuro da saúde digital, provocando os participantes a repensar quem deve estar presente quando as soluções que transformarão o cuidado estiverem sendo desenhadas.

Perguntas Frequentes

O que é o HIS 2026 e qual seu foco principal?

O HIS 2026 é um evento focado em saúde digital, tecnologia e inovação. Ele visa discutir o papel crucial dos médicos na construção e no desenho de soluções tecnológicas para o setor de saúde.

Quem é Brian Han e qual sua relevância para o debate sobre saúde digital?

Brian Han é um renomado cardiologista pediátrico e médico intensivista da Stanford University, além de keynote speaker do HIS 2026. Ele defende que os médicos devem ser "arquitetos" das soluções digitais para garantir que as inovações sejam clinicamente relevantes e eficazes.

O que significa o conceito de “médico-arquiteto” na saúde digital?

O “médico-arquiteto” é o profissional de saúde que, além de identificar problemas clínicos, participa ativamente de todas as etapas do desenvolvimento de soluções digitais. Ele dialoga com áreas como tecnologia e design para moldar inovações que atendam às necessidades reais da assistência.

Por que a participação ativa do médico é fundamental para a inovação tecnológica na saúde?

A participação ativa do médico é crucial porque garante que as soluções tecnológicas abordem problemas reais enfrentados no dia a dia da clínica e sejam efetivamente relevantes para o cuidado. Isso evita que as inovações sejam apenas avançadas tecnicamente, mas sem utilidade prática para pacientes e profissionais.

Quais são as principais lições de Stanford que podem ser aplicadas no Brasil para a saúde digital?

A experiência de Stanford sugere que hospitais e organizações de saúde no Brasil devem criar ambientes colaborativos. Neles, médicos, profissionais de tecnologia, designers e executivos trabalham juntos desde o início para identificar e solucionar problemas reais, garantindo que a tecnologia traga um impacto efetivo na assistência.