Para pessoas com mais de 80 anos, uma internação pode representar mais do que o tratamento de uma doença, expondo o paciente a uma série de perdas funcionais.
A frase que guia a geriatria moderna ressoa com clareza na voz dos especialistas: “A melhor internação é aquela que é evitada”. Para as pessoas idosas, especialmente aquelas acima dos 80 anos, a hospitalização transcende o tratamento de uma enfermidade aguda e se torna um fator de risco para a perda de funcionalidade.
Maurício Miranda, diretor do Serviço de Geriatria do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) de São Paulo, ressalta que a pouca reserva fisiológica, característica do envelhecimento e do impacto de doenças crônicas, torna o ambiente hospitalar um terreno fértil para a diminuição da capacidade física e mental.
Manter o acompanhamento médico em dia, com medicações, vacinas, exames e consultas, além de uma alimentação equilibrada e a prática de atividades físicas, é crucial. Essas medidas são a base para preservar a autonomia e evitar os desafios que uma estadia hospitalar prolongada pode acarretar.
O que é a incapacidade associada à internação hospitalar?
A incapacidade associada à hospitalização (IAH) ocorre quando um paciente recebe alta com menor capacidade para realizar atividades que desempenhava antes da internação. Essa situação é particularmente preocupante em idosos, cuja recuperação pode ser mais lenta e complexa.
A IAH resulta de uma combinação de fatores. A doença aguda que motivou a internação, a imobilidade forçada no leito, a perda de massa muscular, a desnutrição e o delirium — um quadro de desorientação mental — são alguns dos principais componentes. A própria redução de estímulos físicos e cognitivos durante a permanência no hospital também contribui para essa perda funcional.
No Serviço de Geriatria do HSPE, onde cuidam predominantemente de pessoas com mais de 80 anos, a experiência diária confirma a fragilidade desses pacientes. A unidade, que normalmente dispõe de 60 leitos, pode expandir para atender cerca de 80 pacientes durante os meses de inverno, quando as doenças respiratórias aumentam, evidenciando a vulnerabilidade dessa faixa etária.
Os perigos da hospitalização para idosos e a perda muscular
Estudos indicam que aproximadamente uma em cada três pessoas idosas apresenta algum grau de perda funcional durante a hospitalização. Para quem tem mais de 80 anos, esse risco é ainda maior, especialmente se houver fragilidade pré-existente, comprometimento cognitivo ou múltiplas doenças crônicas.
A perda de força muscular é uma das consequências mais severas e preocupantes. Em média, apenas cinco a dez dias de repouso podem reduzir em cerca de 10% a 15% a potência dos músculos. Em casos de imobilização completa, a perda de massa muscular pode chegar a 0,5% a 1% ao dia. Isso explica por que um idoso que caminhava sozinho antes da internação pode precisar de ajuda para se levantar da cama poucos dias depois.
O músculo não é apenas responsável pelos movimentos; ele é uma importante reserva metabólica do organismo. Sua perda favorece quedas, aumenta o risco de novas internações, dificulta a reabilitação e compromete diretamente a autonomia do indivíduo. Por isso, o tempo de permanência no leito é considerado um dos maiores inimigos para o idoso internado, como destaca Maurício Miranda.
Estratégias para evitar internações e preservar a autonomia
Para diminuir a necessidade de hospitalização em idosos, a prevenção é a ferramenta mais eficaz. Manter as vacinas contra influenza, Covid-19 e pneumococo atualizadas é fundamental, pois isso reduz significativamente o risco de desenvolver formas graves dessas infecções e, consequentemente, de precisar de internação.
Para a pessoa muito idosa, o benefício da vacinação vai muito além de evitar uma pneumonia. Significa reduzir também o risco de delirium, perda de massa muscular, incapacidade funcional e dependência. Essas medidas contribuem diretamente para preservar a reserva fisiológica do organismo.
Da mesma forma, uma alimentação adequada, com ingestão suficiente de proteínas, a prática regular de atividade física — em especial exercícios de fortalecimento muscular e equilíbrio —, o controle adequado das doenças crônicas e a revisão periódica dos medicamentos utilizados são práticas essenciais que ajudam a preservar a autonomia e a evitar internações desnecessárias.
A filosofia da geriatria moderna e a qualidade de vida
A principal lição da geriatria moderna, conforme enfatiza Maurício Miranda, é que “não basta acrescentar anos à vida. É preciso acrescentar vida aos anos”. Essa máxima reflete a importância de focar não apenas na longevidade, mas na qualidade de vida e na manutenção da funcionalidade e autonomia dos idosos.
Investir em prevenção e em um estilo de vida saudável é a chave para garantir que os anos adicionados à vida sejam vividos com dignidade, independência e bem-estar, minimizando os riscos e as consequências adversas de uma internação hospitalar na terceira idade.
Perguntas Frequentes
Por que a internação é mais arriscada para idosos?
A internação é mais arriscada para idosos devido à sua menor reserva fisiológica e à presença de doenças crônicas. O ambiente hospitalar e o repouso prolongado podem levar a perdas funcionais significativas, como a diminuição da capacidade de realizar atividades diárias.
Quais são os principais fatores que causam perda de funcionalidade no hospital?
Os principais fatores incluem a doença aguda que motivou a internação, a imobilidade no leito, a perda de massa muscular, a desnutrição, o delirium (desorientação mental) e a redução de estímulos físicos e cognitivos durante a estadia.
Como evitar a hospitalização de pessoas idosas?
Para evitar a hospitalização, é crucial manter as vacinas atualizadas (influenza, Covid-19, pneumococo), ter uma alimentação rica em proteínas, praticar atividade física regularmente, controlar adequadamente doenças crônicas e revisar periodicamente os medicamentos.
Qual a importância das vacinas para a saúde do idoso?
As vacinas são de extrema importância, pois reduzem significativamente o risco de infecções graves que podem levar à hospitalização. Para os idosos, isso significa não apenas evitar a doença em si, mas também diminuir o risco de delirium, perda muscular e dependência funcional associados à internação.
O que significa a frase “não basta acrescentar anos à vida. É preciso acrescentar vida aos anos”?
Essa frase, que guia a geriatria moderna, enfatiza que o foco não deve ser apenas em prolongar a vida, mas em garantir que esses anos adicionais sejam vividos com qualidade, autonomia, saúde e bem-estar, mantendo a funcionalidade e a independência do idoso.
