Pesquisa do IBEVAR e FIA Business School revela que a busca por bem-estar mudou drasticamente após 2020, impulsionada por ansiedade e novos fármacos como Ozempic.

O brasileiro não perdeu o interesse pela própria saúde nas últimas duas décadas, mas a forma de buscá-la passou por uma transformação significativa. É o que revela um índice inédito, desenvolvido por pesquisadores do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (IBEVAR) em parceria com a FIA Business School.

O estudo rastreou 22 anos de comportamento digital, analisando 270 observações mensais entre 2004 e 2026. A pesquisa desvendou uma nítida migração de foco: da disciplina física e dietas estruturadas para soluções estético-farmacológicas e cuidados com a saúde emocional.

Essa mudança abrupta, acelerada pela pandemia de Covid-19 e consolidada pelo avanço de medicamentos como os da classe GLP-1, redesenha o cenário da busca por bem-estar no país, apontando para uma nova prioridade entre os consumidores.

A Mudança no Foco da Saúde do Brasileiro

Os pesquisadores identificaram dois eixos distintos e concorrentes que explicam 68,16% de toda a variação observada no comportamento. O primeiro é o Fator Estético-Farmacológico e de Saúde Emocional, responsável por 35,95% da variação. Ele engloba temas como harmonização facial, botox, skincare, ansiedade e o uso de medicamentos como Ozempic, semaglutida e Mounjaro.

Em contrapartida, existe o Fator de Fitness Estruturado e Dieta Assistida, que responde por 32,21% da variação. Este grupo reúne atividades como musculação, crossfit, a busca por nutricionistas e dietas com acompanhamento profissional. Por muitos anos, a disciplina física esteve à frente na preferência dos brasileiros.

O Impacto da Pandemia e dos Medicamentos GLP-1

A série histórica mostra que a liderança do fator ligado à disciplina física prevaleceu até 2020. Foi a partir daquele ano que ocorreu uma mudança decisiva: com a chegada da pandemia, o fator estético-farmacológico disparou, impulsionado pelo aumento da ansiedade, o isolamento social e os novos hábitos de “cuidado de tela”, como as rotinas de skincare e a terapia online.

Uma vez na liderança, esse fator nunca mais regrediu. A partir de 2023, a ascensão dos medicamentos GLP-1 foi crucial para consolidar essa dianteira, levando o indicador aos seus maiores patamares no início de 2026, solidificando a tendência de buscar soluções mais rápidas e estéticas.

Renda e a Busca por "Atalhos" na Saúde

O estudo também estabeleceu uma relação direta entre o fenômeno e a renda do brasileiro. Os dados indicam que um aumento de 1% na renda média real da população corresponde, em média, a um avanço de 0,27% no Fator Estético-Farmacológico. Essa correlação é uma evidência de que a busca por um "atalho" na saúde não é apenas motivada por questões emocionais, mas também é sensível ao poder de compra.

Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e Professor da FIA Business School, resumiu a situação com uma analogia impactante: “O Brasil não desistiu da academia — só descobriu que pode chegar mais rápido desenhando um atalho com uma caneta”. Essa declaração destaca a preferência por soluções que prometem resultados mais ágeis e menos exigentes fisicamente.

Como o Comportamento Digital Revela Novas Tendências

A construção do Índice de Preocupação com a Saúde envolveu técnicas avançadas de mineração e classificação automática de menções em redes sociais. A metodologia combinou duas técnicas de Processamento de Linguagem Natural (NLP): um classificador de tópicos, que identificou o volume mensal de menções a 33 termos de saúde pré-mapeados, e um modelo de análise de sentimento e emoção treinado especificamente para o contexto brasileiro.

Os escores mensais resultantes foram então submetidos à Análise Fatorial Exploratória, que confirmou a existência e a relevância dos dois fatores principais: Estético-Farmacológico e de Saúde Emocional, e Fitness Estruturado e Dieta Assistida.

Perguntas Frequentes

Qual o principal resultado do estudo sobre o interesse do brasileiro por saúde?

O estudo do IBEVAR e FIA Business School aponta que o brasileiro não perdeu o interesse por saúde, mas o direcionou da disciplina física (academias, dietas) para a estética, medicamentos e saúde emocional, com destaque para fármacos como Ozempic, semaglutida e Mounjaro.

Quando o interesse por medicamentos e estética superou a busca por fitness?

A mudança de liderança ocorreu abruptamente a partir de 2020, com a pandemia, e se consolidou a partir de 2023 com a ascensão dos medicamentos GLP-1, alcançando os maiores patamares da série no início de 2026.

Existe relação entre renda e a busca por soluções estético-farmacológicas?

Sim, o estudo revela que um aumento de 1% na renda média real do brasileiro corresponde a um avanço de 0,27% no Fator Estético-Farmacológico, indicando que a busca por "atalhos" é sensível ao poder de compra.

Quem realizou a pesquisa e como ela foi feita?

A pesquisa foi desenvolvida por pesquisadores do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (IBEVAR) em parceria com a FIA Business School. O estudo analisou 22 anos de comportamento digital (2004 a 2026), utilizando mineração de redes sociais e técnicas de Processamento de Linguagem Natural (NLP).