Apesar da alta percepção sobre o retorno da doença, apenas 39% das mulheres já ouviram falar no termo técnico, revelando lacuna na comunicação.
Uma nova pesquisa revela um paradoxo no conhecimento das mulheres brasileiras sobre o câncer de mama. Embora uma esmagadora maioria de 87% reconheça a possibilidade de a doença retornar após o tratamento inicial, um número significativamente menor – apenas 39% – afirma ter familiaridade com a palavra “recidiva”, o termo técnico que descreve esse retorno.
O levantamento, realizado pela Ipsos a pedido da Novartis Brasil, aponta para uma lacuna importante na comunicação sobre as etapas que se seguem ao tratamento primário. Isso sugere que, apesar de um reconhecimento geral do risco, a compreensão detalhada sobre a continuidade do cuidado ainda precisa ser ampliada no país.
Os dados sublinham a importância de oferecer informações claras, responsáveis e fundamentadas em evidências. O objetivo é capacitar pacientes, familiares e a sociedade em geral a entender melhor a necessidade do acompanhamento prolongado, das discussões com a equipe médica e de um cuidado individualizado ao longo de toda a jornada.
Conhecimento sobre recidiva de câncer de mama
O estudo da Ipsos demonstra um claro contraste entre o reconhecimento do risco e a familiaridade com a terminologia específica. Enquanto 87% das entrevistadas admitem a chance de retorno da doença, a palavra “recidiva” é bem menos conhecida do que outras expressões comuns no contexto do câncer de mama.
Para exemplificar, 87% das mulheres já ouviram falar em quimioterapia, 84% em biópsia, 77% em tumor maligno e 73% em metástase. Esses números revelam que, embora a população esteja exposta a termos cruciais da jornada do câncer, “recidiva” ainda não faz parte do vocabulário da maioria, mesmo que o conceito seja compreendido intuitivamente.
Mesmo diante dessa falta de familiaridade com o termo, quando o conceito é explicado, há um forte reconhecimento da importância do cuidado pós-tratamento. Segundo a pesquisa, 90% das entrevistadas concordam que, mesmo após a remoção do tumor em estágio inicial, pode ser recomendado um tratamento adicional para ajudar a prevenir o retorno da doença. Além disso, 64% delas concordam que, em certos casos, o tratamento complementar após a cirurgia pode se estender por até 10 anos.
Maira Caleffi, chefe do serviço de mastologia do Hospital Moinhos de Vento e fundadora da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA), destaca a relevância desses achados. “A pesquisa mostra que a população reconhece que existe o risco de a doença voltar, mas nem sempre tem acesso a informações simples e claras sobre o que é recidiva e por que o acompanhamento ao longo do tempo pode ser necessário — assim como sobre a importância da adesão ao tratamento adjuvante, quando indicado, como estratégia para reduzir o risco de recidiva”, afirma Caleffi. Ela complementa que, na prática clínica, apenas cerca de 50% das mulheres conseguem completar os cinco anos recomendados de terapia endócrina adjuvante, evidenciando uma lacuna importante no cuidado.
Importância do acompanhamento pós-tratamento
A percepção sobre o cuidado após a cirurgia também se mostra robusta: 63% das entrevistadas apontam que o acompanhamento e o tratamento contínuo são cruciais para diminuir a probabilidade de retorno da doença. Esse resultado indica que, mesmo sem dominar os termos técnicos, muitas mulheres já compreendem a relevância das estratégias voltadas à redução desse risco.
O câncer de mama inicial é caracterizado pela localização da doença na mama e, em alguns casos, nos linfonodos próximos, sem sinais de disseminação para outras partes do corpo. Contudo, mesmo após o tratamento inicial — que pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia e/ou outras abordagens definidas pela equipe médica —, algumas pacientes podem continuar em risco de recidiva por décadas. Isso torna o cuidado contínuo e o acompanhamento de longo prazo absolutamente essenciais.
A recidiva pode manifestar-se de forma local (na mama ou na cicatriz), regional (nos linfonodos próximos) ou à distância, quando a doença reaparece em outras partes do corpo e é então classificada como metastática. Por isso, a jornada de cuidado não se encerra com a cirurgia: o acompanhamento médico regular, a adesão rigorosa ao tratamento e a avaliação individualizada do risco permanecem como etapas centrais e devem ser sempre discutidas com a equipe de saúde.
Maira Caleffi reforça que esse cenário “reforça a importância de ampliar estratégias como a navegação de pacientes, oferecendo o suporte necessário para que as mulheres sejam bem orientadas e tenham condições, inclusive emocionais, de completar sua jornada de tratamento. Ao mesmo tempo, ampliar o acesso às opções terapêuticas disponíveis no SUS é essencial para permitir a personalização do cuidado, considerando a diversidade de perfis e rotinas das mulheres com câncer de mama, que são cada vez mais jovens”.
Câncer de mama inicial e alto risco de recidiva
A discussão sobre a recidiva ganha ainda mais peso ao observar que, entre pacientes com câncer de mama inicial do subtipo mais comum, RH+/HER2-, aproximadamente 1 em cada 3 é classificada como de alto risco de recidiva. Isso significa que a probabilidade de a doença retornar pode ultrapassar os 40%, dependendo de fatores clínicos e das características específicas do tumor.
Nesse contexto, a abertura da consulta pública da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), de número 61/2026, representa uma oportunidade significativa de participação social. A consulta visa à inclusão, no SUS, de uma nova opção de tratamento adjuvante para pacientes com câncer de mama inicial, do subtipo RH+/HER2-, que apresentam alto risco de recidiva.
A consulta pública é uma etapa oficial e crucial em que a sociedade pode contribuir com opiniões, relatos de experiência e percepções. Essas contribuições são fundamentais para complementar a análise técnica do Ministério da Saúde sobre a incorporação de novos tratamentos, outras tecnologias e procedimentos em saúde. Pacientes, seus familiares, profissionais de saúde, organizações da sociedade civil e qualquer cidadão têm o direito de participar, registrando suas contribuições no canal oficial da Conitec.
Em um tema onde a informação, o acompanhamento adequado e o acesso a tratamentos podem impactar profundamente a trajetória de cuidado, ampliar a escuta da sociedade é também uma maneira de aproximar a tomada de decisões da realidade vivida por quem convive com o câncer de mama no Brasil.
Perguntas Frequentes
O que significa recidiva do câncer de mama?
A recidiva do câncer de mama é quando a doença retorna após um período de tratamento e remissão. Ela pode ser local (na mama ou cicatriz), regional (em linfonodos próximos) ou à distância (em outras partes do corpo, sendo chamada de metastática).
Por que o acompanhamento é importante após o tratamento inicial do câncer de mama?
O acompanhamento contínuo e o tratamento complementar são cruciais porque, mesmo após o tratamento inicial, algumas pacientes permanecem em risco de recidiva por anos ou décadas. Esse cuidado ajuda a reduzir a probabilidade de a doença voltar e a garantir a melhor qualidade de vida.
Qual o papel da Conitec na inclusão de novos tratamentos no SUS?
A Conitec é responsável por analisar e recomendar a incorporação de novas tecnologias, medicamentos e procedimentos ao Sistema Único de Saúde (SUS). As consultas públicas permitem que a sociedade contribua com sua visão, complementando a análise técnica e influenciando decisões de saúde pública.
Quanto tempo pode durar o tratamento complementar para prevenir a recidiva?
O tratamento complementar, conhecido como terapia adjuvante, pode durar por períodos variados, dependendo do caso. A pesquisa aponta que 64% das entrevistadas concordam que, em alguns casos, ele pode se estender por até 10 anos para ajudar a prevenir o retorno da doença.
Quais são os subtipos de câncer de mama com maior risco de recidiva?
Um dos subtipos com maior risco de recidiva é o RH+/HER2-. Nesse grupo, aproximadamente 1 em cada 3 pacientes é classificada com alto risco, o que significa que a probabilidade de retorno da doença pode ultrapassar 40%, dependendo de fatores clínicos específicos do tumor.
