Setor de saúde movimentou R$ 85,4 bilhões em 2025 e alerta para riscos da dependência externa de tecnologias estratégicas.

O Sistema Único de Saúde (SUS) celebra 36 anos de existência em um cenário onde a infraestrutura para atender a população brasileira levanta um debate crucial sobre a origem de seus insumos. O mercado de dispositivos médicos no país, que movimentou R$ 85,4 bilhões em 2025, com um crescimento de 13,9% em relação ao ano anterior, revela uma dependência significativa do exterior.

Atualmente, a produção nacional de dispositivos médicos, que inclui desde agulhas e cateteres até equipamentos de diagnóstico complexos, responde por apenas cerca de 40% do consumo aparente no Brasil. Este indicador, que soma a produção local às importações e subtrai as exportações, expõe que grande parte dos itens essenciais para a saúde ainda é fabricada fora do país.

Essa lacuna na fabricação interna gera preocupações estratégicas, especialmente para um sistema de saúde da dimensão do SUS. A dependência de fornecedores externos para tecnologias vitais pode impactar diretamente a continuidade da assistência, desde a atenção básica até procedimentos de alta complexidade.

A Complexidade da Dependência Externa de Dispositivos Médicos

Para a Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO), a importação é um componente fundamental em um setor globalizado e de inovação constante. Contudo, a entidade alerta para os riscos inerentes a uma dependência acentuada em tecnologias consideradas estratégicas para a manutenção da assistência à saúde no Brasil.

Márcio Bósio, Diretor Institucional da ABIMO, enfatiza que a questão vai além do financiamento do SUS. "Quando um equipamento, material ou insumo essencial não chega, o impacto pode alcançar diretamente a assistência, afetando exames, procedimentos e tratamentos", declara Bósio. Ele ressalta que "o SUS não depende apenas de financiamento. Ele depende de uma infraestrutura capaz de funcionar continuamente e, em um sistema dessa dimensão, segurança de abastecimento também precisa fazer parte do planejamento".

Os dispositivos médicos abrangem uma vasta gama de produtos, equipamentos, materiais e tecnologias. Eles são utilizados em diversas etapas do cuidado, desde a prevenção e o diagnóstico até o tratamento e a reabilitação, incluindo itens como agulhas, cateteres, reagentes, instrumentos cirúrgicos, implantes e aparelhos de diagnóstico.

Potencial de Produção Nacional e Redução de Vulnerabilidades

Apesar da atual proporção de 40% de produção nacional, o Brasil possui um considerável conhecimento e capacidade tecnológica para fabricar internamente uma grande parte das tecnologias aplicadas na área da saúde. A discussão, no entanto, não é sobre produzir absolutamente tudo no país ou fechar o mercado para as importações.

Há categorias de produtos onde o volume de demanda e a escala necessária podem tornar a produção local economicamente menos competitiva. A prioridade reside em identificar quais tecnologias são de fato estratégicas e em quais o Brasil já detém competência produtiva, buscando ampliar a fabricação interna onde há maior vulnerabilidade.

Conforme explicado por Márcio Bósio, "O Brasil tem indústria, conhecimento e capacidade tecnológica. Não se trata de produzir tudo aqui ou fechar o mercado às importações, mas de identificar onde a dependência externa pode representar um risco e onde temos condições de ampliar nossa própria capacidade de resposta. Para um sistema como o SUS, essa também é uma questão de segurança e planejamento de longo prazo".

Compras Públicas para Estimular a Indústria Brasileira de Saúde

O potencial da indústria instalada no Brasil é evidente também nas aquisições voltadas para o sistema público. Dados do Ministério da Saúde indicam que aproximadamente 50% das compras realizadas no âmbito do PAC Saúde foram direcionadas a empresas brasileiras, demonstrando um caminho para fortalecer a produção local.

A ABIMO defende que o poder de compra do SUS pode ser um motor para desenvolver a capacidade produtiva e a inovação no país. Para isso, as aquisições públicas devem ir além do preço inicial, considerando critérios como qualidade, desempenho, assistência técnica, manutenção, vida útil e o custo total da contratação.

Márcio Bósio detalha essa visão: "O poder de compra do SUS pode contribuir para desenvolver capacidade produtiva e inovação no País. Isso não significa privilegiar uma tecnologia apenas por ser nacional, mas criar condições para que qualidade, desempenho, segurança de abastecimento e custo ao longo de toda a vida útil também sejam considerados nas decisões de compra".

Fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde e Legislação

A discussão sobre a autonomia na produção de dispositivos médicos ganha relevância no contexto de fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS). Este programa estratégico busca ampliar a capacidade nacional de produção e inovação, visando reduzir as vulnerabilidades do Brasil na área da saúde.

Recentemente, a iniciativa recebeu um impulso adicional com a aprovação da Lei 15.47/26, que estabelece a estratégia nacional de saúde. Essa legislação prevê a criação de empresas e produtos estratégicos de saúde, sinalizando um movimento importante para consolidar a soberania tecnológica e produtiva do país no setor.

Perguntas Frequentes

Qual a porcentagem da produção nacional de dispositivos médicos no Brasil?

Atualmente, a produção brasileira responde por cerca de 40% do consumo aparente de dispositivos médicos no país, indicando uma dependência relevante de produtos importados para suprir as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS) e da saúde privada.

Qual o valor de mercado de dispositivos médicos no Brasil?

O mercado de dispositivos médicos no Brasil movimentou R$ 85,4 bilhões em 2025, registrando um crescimento de 13,9% em comparação ao ano anterior. Este setor engloba uma vasta gama de produtos essenciais para a prevenção, diagnóstico e tratamento.

O que a ABIMO defende sobre a produção nacional de tecnologias em saúde?

A ABIMO (Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos), através de seu Diretor Institucional Márcio Bósio, defende que, embora as importações sejam necessárias, é crucial identificar e ampliar a produção de tecnologias estratégicas no Brasil para reduzir riscos de dependência e garantir a segurança do abastecimento do SUS. A associação também sugere que as compras públicas considerem, além do preço, fatores como qualidade, desempenho e custo total de contratação.

O que é a Lei 15.47/26 e qual sua importância para a saúde?

A Lei 15.47/26 é uma legislação recente que cria a estratégia nacional de saúde, estabelecendo a criação de empresas estratégicas e produtos estratégicos de saúde. Sua importância reside no fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), buscando ampliar a capacidade produtiva e de inovação do Brasil para reduzir vulnerabilidades no setor.