Cientistas franceses e japoneses desvendam quiralidade e revolucionam a segurança de medicamentos.
O mistério das moléculas espelhadas rendeu o Prêmio Nobel de Química ao francês Henri B. Kagan, de 95 anos, e ao japonês Kenso Soai, de 72, anunciados pela Real Academia Sueca de Ciências em Estocolmo.
Eles desvendaram o fenômeno da quiralidade, explicando por que os organismos vivos utilizam apenas uma versão dessas estruturas, descoberta fundamental para o desenvolvimento de fármacos seguros em laboratório.
A pesquisa conjunta, realizada de forma independente pelos laureados, soluciona uma dúvida histórica da química orgânica, conforme informação divulgada por Farmacias.
Entendendo o conceito de quiralidade química
Para explicar a quiralidade, os cientistas usam o exemplo de duas chaves idênticas que são espelhadas, onde apenas uma abre a fechadura e a outra pode causar danos, exigindo precisão na produção industrial de remédios.
Cada componente desse par é chamado de enantiômetro. Enquanto Kagan descobriu como manipular reações para produzir uma versão em excesso, Soai desenvolveu um processo para gerar apenas uma forma isolada no laboratório.
A professora Juliana Brito, da Unesp, destaca que o legado dos cientistas evita tragédias históricas, citando o caso do medicamento talidomida, onde a presença da forma tóxica causou graves más-formações em gestantes.
A assimetria da vida e os estudos de Louis Pasteur
A origem do problema está na química orgânica, pois aminoácidos e açúcares do DNA possuem versões espelhadas, mas a vida no planeta é homoquiral, preferindo apenas um lado específico para funcionar cellularmente.
No século 19, o biólogo francês Louis Pasteur já investigava o fenômeno no ácido tartárico do vinho, observando que bactérias tinham preferência por apenas um dos lados do composto que desviava a luz polarizada.
Nas décadas seguintes, cientistas continuaram as buscas, até que Henri B. Kagan aprimorou catalisadores na antiga Université Paris-Sud para obter pares cada vez mais puros destinados à indústria farmacêutica.
A reação de Soai e a amplificação da assimetria
Em 1986, Kagan observou que não era preciso um catalisador 100 por cento puro para obter um enantiômeno dominante, despertando o interesse do pesquisador Kenso Soai, da Universidade de Ciência de Tóquio.
Soai publicou em 1995 um artigo demonstrando a produção de um composto com 87 por cento de um único lado e, oito anos depois, alcançou a famosa reação de Soai com pureza de 99,99 por cento.
Considerado um dos ensaios mais elegantes da química, o experimento provou que a amplificação da quiralidade ocorre por autocatálise, onde o próprio produto atua na formação majoritária do enantiômetro.
Perguntas Frequentes
O que é o Prêmio Nobel de Química para moléculas espelhadas?
É a premiação concedida pela Academia Sueca a Henri B. Kagan e Kenso Soai por descobrirem como produzir moléculas espelhadas em laboratório, garantindo a segurança de medicamentos.
Quem são os cientistas premiados com o Nobel?
Os cientistas laureados são o francês Henri B. Kagan, da Universidade Paris-Saclay, e o japonês Kenso Soai, da Universidade de Ciência de Tóquio.
Por que as moléculas espelhadas são perigosas em remédios?
Porque organismos vivos usam apenas uma das versões estruturais, e a forma espelhada oposta pode ser inócua ou provocar efeitos colaterais graves e tóxicos, como ocorreu com a talidomida.
O que significa o termo quiralidade na química?
Quiralidade é a propriedade de moléculas que possuem pares quase idênticos, mas espelhados e não sobreponíveis, semelhantes à mão esquerda e à mão direita.

