Iniciativa do Hospital de Amor reúne dados genéticos para adaptar estratégias de saúde à população brasileira.

Um novo biorrepositório brasileiro foi criado para ajudar a personalizar a prevenção do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS), permitindo identificar pessoas com maior risco de desenvolver a doença.

O projeto liderado pelo Hospital de Amor, localizado em Barretos, no estado de São Paulo, já conta com mais de 4 mil participantes e quase 40 mil amostras de sangue para desenvolver ferramentas preditivas.

A pesquisa detalha a criação dessa base de dados com financiamento da FAPESP e foi publicada recentemente na revista científica iScience, conforme informação divulgada por Medicina SA.

Desafios da medicina de precisão no Brasil

Segundo o pesquisador Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor, mais de 90% dos grandes estudos genômicos globais utilizam dados de pessoas com ancestralidade europeia.

O especialista ressalta que o Brasil não pode construir uma medicina de precisão utilizando uma régua desenvolvida para populações estrangeiras, que possuem características genéticas e estilos de vida totalmente diferentes.

A nova iniciativa aproveita a infraestrutura do biobanco institucional criado em 2006, buscando preencher essa lacuna histórica e atender adequadamente a miscigenação da população brasileira.

O papel do escore poligênico de risco

Os pesquisadores utilizam o chamado escore poligênico de risco, que avalia milhares de pequenas variações espalhadas pelo DNA para calcular a predisposição genética combinada a determinados tumores.

Diferente de testes para mutações hereditárias específicas, o escore soma o efeito de várias alterações genéticas para identificar indivíduos com maior ou menor probabilidade de desenvolver a doença.

A ferramenta não crava um diagnóstico definitivo, mas ajuda a apontar quais pacientes podem se beneficiar de um acompanhamento médico diferenciado e mais atento.

Fatores ambientais e estilo de vida

O projeto coordenado por Rui Manuel Reis não analisa apenas o material genético, pois também aplica questionários abrangentes sobre alimentação, tabagismo, profissão e hábitos diários.

A combinação entre os dados biológicos e as informações epidemiológicas permite entender como a predisposição genética interage com o ambiente e com os diferentes graus de ancestralidade.

Essas análises são fundamentais para compreender a diversidade genética encontrada nas diferentes regiões do país e aprimorar os modelos de previsão de risco.

Foco em três tipos de câncer

A primeira fase do estudo priorizou os tumores de mama, colorretal e do colo do útero, escolhidos por terem grande impacto epidemiológico e contarem com exames estabelecidos de rastreamento.

Com informações mais precisas sobre a predisposição individual, o SUS poderá no futuro orientar estratégias preventivas mais eficazes, como a realização de exames antecipados para grupos de maior risco.

A meta da instituição é alcançar pelo menos 8 mil participantes nos próximos dois anos, divididos igualmente entre pessoas com e sem diagnóstico de câncer.

Perguntas Frequentes

O que é o biorrepositório do Hospital de Amor?

É um banco de amostras biológicas e dados genéticos em Barretos criado para desenvolver ferramentas de previsão de risco de câncer adequadas à população brasileira.

Como o escore poligênico de risco funciona?

Ele soma milhares de pequenas variações genéticas espalhadas pelo DNA para estimar a predisposição de uma pessoa a desenvolver determinados tumores.

O projeto atende pacientes da rede pública?

Sim, a iniciativa busca gerar conhecimento aplicável no futuro para personalizar estratégias de prevenção e rastreamento no Sistema Único de Saúde (SUS).

Quais tumores são estudados inicialmente?

Nesta primeira etapa, os pesquisadores estão focando nos cânceres de mama, colorretal e do colo do útero, que possuem métodos de detecção precoce.